domingo, 23 de abril de 2017

Em Abril, tintos mil

Ao contrário do que costuma acontecer, este post está a começar a ser escrito vários dias antes da prova. Regressar a Santarém este ano marca um ponto de viragem e tenho pensado imenso nisto sem o partilhar com ninguém. Faço-o aqui na semana antes da prova sempre que me lembrar de juntar uns parágrafos à história.

Então vamos lá fazer um pequeno flashback... No ano passado por esta altura estava - sem falsas modéstias - na minha melhor forma física até então e andava a bater recordes pessoais a cada prova que fazia. Fui a Santarém bater o que era na altura o meu record dos 10km e saí de lá a esconder as lágrimas, a frustração e o caos no qual me deixei afundar. Era o início antecipado do terrível mês de Maio e do descalabro que levou à desistência no Douro Vinhateiro.

Um ano depois tudo mudou - para melhor - e é com este espírito que a prova está a ser preparada! (Nota: não sei de que forma devo usar os tempos verbais porque hoje ainda é 2a à noite mas isto só vai ser publicado depois da prova.)
Fisicamente estou de volta ao meu andamento ideal, mentalmente estou com as ideias no sítio e estarei rodeado de verdadeiros amigos. Não posso pedir mais.

A minha análise prévia à prova diz que há ali uns quilómetros em que posso melhorar uns quantos segundos para tentar baixar o tempo de 2016 e fazer abaixo dos 50 minutos, mas sinceramente não tenho qualquer expectativa. É ver como estão as pernas, meter o meu melhor sorriso e ir até à meta.
E pronto, tudo o que vier a seguir já foi escrito depois da prova.

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E lá fomos para Santarém. Partimos cedo para termos tempo para estacionar com calma e levantar os dorsais antes das 19:00. Chegámos com alguma antecedência e deu mais que tempo para tudo, inclusivé comer e tirar fotos artísticas. E conversar bastante. No meu caso também foi bom para ver algumas caras conhecidas de outras equipas e foram várias as que encontrei, quase a cada esquina. Isto também é muito bom e ajuda a entrar no espírito antes da prova.

Minutos antes da partida fomos para o garrafão da meta. Já tinha percebido que - por alguma razão que sinceramente me ultrapassa - o meu dorsal tinha indicação de sub-50 por baixo do meu escalão de idade. Será que na altura da inscrição pediam comprovativos? Sinceramente só me lembro de enviar isso para as Fogueiras, mas se calhar nesta também. Por um lado isso foi óptimo porque me permitiu partir mais à frente - e nesta prova isso faz muita diferença nos primeiros kms - por outro lado eu era o único da equipa nessa caixa de atletas, pelo que depois dos cumprimentos habituais e dos votos de boa prova antes da partida estive uns 10 minutos "sozinho". Aproveitei para me isolar nos meus pensamentos e focar-me no que podia fazer.

O primeiro quilómetro foi o normal acertar de posição no meio do pelotão e ajustar o ritmo ideal. Nesta prova essa quilómetro inclui uma nova passagem pelo pórtico de partida para depois sermos lançados pelas ruas e ruelas de Santarém, passando a imensos pontos chave da cidade, incluindo as Portas do Sol e a Escola Prática de Cavalaria, de onde Salgueiro Maia partiu a 25 de Abril de 1974. Recordava-me de quase todos os cantinhos e pedras da calçada que estava a pisar. Estava a conseguir dois objectivos: meter um ritmo sempre constante abaixo dos 5m/km (4:45 era a média que o relógio marcava) e conseguir ter a música suficientemente alto nos phones para me manter imune a qualquer grito de golo que pudesse surgir. E descobri que os Starset da minha playlist são uma das bandas favoritas da filha adolescente de um colega meu quando antes da prova ele me mostrava a sua própria playlist. Isso será bom?

Prescindi do abastecimento de vinho na Taberna do Quinzena aos 3kms. Passei pela primeira mesa onde toda a gente se estava a aglomerar e quando dei por isso já não havia mais locais para agarrar um copo. Não sendo essencial, é icónico da prova e pareceu-me que este ano o abastecimento era mais contido. Segui, a pensar que um copinho me iria deixar mais descontraído para o resto, mas paciência.

Obviamente que a certa altura ia entrar no jogo psicológico de ter a cabeça a dizer-me que aquele ritmo era parvo. Ali aos 5/6kms ao dar a volta ao Jardim das Portas do Sol estava a quebrar um pouco mas reagi da melhor maneira que soube: meti um sorriso nos lábios e olhei à procura de quem vinha em sentido contrário. Tinha que passar um ar tranquilo ao pessoal da equipa com quem me cruzasse. E sorrir torna tudo muito mais fácil. E ver caras amigas também, mesmo que nem sempre tivessem reparado que eu estava ali do outro lado. Aos 7,5km já estava curado, fiz mentalmente o percurso que faltava até à meta e isso deixou-me calmo. A passagem pela Escola de Cavalaria também é um ponto alto da prova. No ano passado havia música alusiva à revolução - e televisões com imagens também? - e desta vez havia apenas silencio juntamente com a clássica fotografia que nos é tirada naquela zona. Já tinha havido música de intervenção antes, para além da sempre interessante presença de tunas e ranchos folclóricos durante o percurso, sempre dispostos a alegrar quem passa.

A partir dali estamos no último km até à meta. Olhei para o relógio e marcava média de 4:51/km. Ora isso é mesmo "resvés Campo de Ourique" do meu record, pá! Prego a fundo e um km final a 4:31 com um bónus de ainda ter puxado pelo público - há coisas que nunca mudam - a seguir à última rotunda antes da meta. E cheguei, feliz, eufórico, enfim... Qualquer adjectivo parece pouco para descrever o que me ia alma. Mas a prova não estava terminada.

Agarrei numa garrafa de água que bem precisava e comecei a fazer o percurso inverso por fora, sem nunca perturbar o trajecto de quem estava a chegar ao fim. Vi passar um, dois colegas que vinham bem. Passaram outras caras conhecidas, outras duas colegas que iam juntas - uma que podia fazer menos 3 ou 4 minutos, mas que vinha a fazer de lebre porque tem dos corações mais bondosos que eu já vi. Muita gente me dizia entretanto que eu estava a ir em sentido inverso, algumas por brincadeira e uma atleta com um verdadeiro ar de preocupação. Senti-me como uma pessoa a conduzir em contra-mão na auto-estrada. Quase não via uma outra colega de equipa que ia sozinha mas bem. É que o Benfica tinha acabado de marcar e naquela altura já podia estar stressado com o jogo. Passa por mim uma das atletas que eu estava à procura e uma rápida troca de palavras deu para perceber que ela ia bem - e para record pessoal. Pensei em seguir com ela para a ajudar, mas não foi preciso. Ela conseguiu e eu estava era mesmo a ver se via o pessoal da equipa que faltava porque sabia que uma colega - mesmo estando acompanhada - ia precisar de um incentivo extra. E quando apareceram fomos até à meta e ainda tivemos mais companhia que isto de vir ajudar quem precisa já está enraizado. Eu falo em colegas de equipa, mas na verdade o que somos é amigos e estamos lá sempre uns para os outros. Por isso é que a minha prova teve quase 1:20 porque só terminou quando toda a equipa passou a meta.    

Passei o resto da noite - enquanto me deliciava com a bifana, imperial (mais uma tinha calhado bem) e pampilho - a dizer que tinha novo record pessoal. Tecnicamente isso não é verdade, o RP aos 10km é 48:16, mas tendo em conta que até foi feito numa prova em que corri com dorsal alheio e tendo em conta que essa prova foi o Grande Prémio de Natal que é óptima para tempos por causa do percurso final do Saldanha até aos Restauradores, não tenho problemas em adoptar o tempo de hoje como RP oficial. Da próxima vez que tiver que enviar um comprovativo de tempo tem que ser este. Olhando para trás, então não é que tirei mesmo uns valentes segundos ao registo de 2016?
   
Próxima meta: Corrida 1º de Maio, onde vou novamente atacar o record dos 15km. Porque estando bem comigo mesmo a única coisa que faz sentido é dar 110% para melhorar os meus registos. Sempre entre amigos, sempre a sorrir.

Prova nº 58 - Scalabis Night Race 2017 - 10km - 00:48:18

quarta-feira, 12 de abril de 2017

#ninguémficaparatrás

É um dos nossos lemas e no domingo tive o privilégio de poder novamente transportar essa ideia dos treinos para uma prova.

Lembrei-me dos nossos primeiros treinos, ainda antes de sermos efectivamente uma equipa, onde era eu o último e era carinhosamente apelidado de Lanterna Vermelha. Lembrei-me do Trail da GNR em Sinta (Setembro/2014) que foi uma das minhas primeiras provas e uma primeira experiência em trail onde fui acompanhado do início do fim por um colega de treino que deve ter feito o dobro dos quilómetros da prova porque subia e descia e avançava e voltava para trás para me vir buscar. A certa altura uma outra atleta dizia-me que aquilo era um amigo à maneira porque me deu todo o apoio possível e imaginário. E foi verdade.

Assim que pude comecei a fazer o mesmo, sobretudo nos treinos para ajudar quem estava a dar os primeiros passos. Ouvi e ainda ouço muitas vezes malta nova - e até pessoal que já faz parte da casa - ir treinar connosco e dizer que não quer incomodar ou perturbar. Dizem que não querem estragar o nosso treino por irem - eventualmente - mais devagar. Fica aqui a nota, mais uma vez: o único treino estragado é aquele que não é feito! Os treinos de grupo são isso mesmo: de grupo! No dia em que eu quiser fazer um treino sem ninguém me "chatear" vou sozinho, por exemplo.

Guardo ainda com grande carinho uma foto da Corrida Orçamento Participativo 2015. Foi a 2ª prova das 4 que foram realizadas, decorreu na Cidade Universitária e coincidiu com o Campeonato Nacional de Estrada em Janeiro 2016. Foi aquela em que faltou a água e onde nos abastecimentos deram garrafas de 0,75cl. Nesse dia depois de terminar "fui buscar" a nossa enfermeira da equipa e estamos a chegar à meta com um sorriso rasgado. Curiosamente ela já prescindiu de tentar fazer melhores resultados em provas para ir a acompanhar colegas de equipa. Ainda agora no Cork Trail fez isso. É apenas um de vários exemplos que mostram que a mensagem está a passar para toda a gente. "Estrago" todos os meus treinos semanais de bom grado se isso significar que este ambiente se mantém.

Esta reflexão surgiu porque ontem ao procurar fotos da prova do Autódromo vi que não fui apanhado à chegada por estar tapado por outro atleta, mas depois fui surpreendido por uma foto da minha segunda passagem pela meta depois de ter ido dar uma força a quem vinha lá atrás. Na foto fomos apanhados a dar um grande abraço de agradecimento. Mais uma vez, aqueles quase 3kms extra que fiz valeram mais que os outros 8,3km da prova e encheram-me a alma de uma maneira que não consigo expressar por palavras.

Já sei que em Santarém vou fazer o mesmo e que a minha prova não vai acabar no momento em que eu cruzar a meta. Nas Fogueiras vai ser igual. (Esta parte do post é só para ti: tu vais conseguir fazer os 15kms!)

Cresci no mundo da corrida com este espírito. Se alguém vier com outras ideias e com outras intenções também corremos com vocês. Corremos com vocês daqui para fora!

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Dia Mundial da Actividade Física

O dia celebrou-se no calendário a 6 de Abril. Eu celebrei-o oficialmente ontem, três actos!

Prólogo

Acordar cedo e partir em direcção ao Estádio da Luz para mais uma edição da Corrida do Benfica. Já fiz a prova nos dois últimos anos e apesar do simbolismo é daquelas que não faço propriamente questão de repetir. Ontem era dia de ficar a torcer por fora para apadrinhar uma estreia nestas andanças: a primeira prova de 5km a correr. Coisa pouca, objectivo modesto, uma ninharia? Nada disso, era o culminar de uma fase de treinos que tenho vindo a acompanhar e que em termos de força de vontade e empenho valem tanto - ou mais - que os 111kms de Sicó!
Foi estranho ir para a bancada (em vez de estar na equipa titular, só para fazer uma alusão ao mundo do futebol) mas foi muito divertido estar do lado de fora. Achei que ia ter uma pontinha de inveja por não estar a correr, mas depressa me passou esse sentimento. E foi excelente receber o carinho de quem estava a correr e me reconhecia, foi fantástico poder retribuir por todas as vezes que precisei de apoio e recebi incentivos de quem assistia a uma prova. O momento alto chegou após uma longa espera (primeiro passou quase toda a gente da corrida e só depois começou a chegar a malta da corrinhada) mas nem se deu pelo tempo passar tal era a enchente de sorrisos. Depois da passagem e ver a gloriosa chegada com uns valentes e honrosos 49 minutos aos 5km. Parabéns e que venha a próxima! Naquele entretanto junto à meta vejo um atleta do CAL, meti conversa com ele e pedi-lhe para mandar um abraço ao Carlos.

Corrida

Saída calma da Luz, passagem por Telheiras e ida rápida até Alcabideche rumo ao Autódromo do Estoril para participar na 1ª Corrida Rádio Comercial. Estava com receio do estacionamento na zona e - apesar dos sábios conselhos de dois amigos conhecedores do espaço - optei por tentar chegar na mesma o mais cedo possível. Foi bom porque tive tempo para levantar dorsal, dar umas voltas lá por dentro e começar a sentir o ambiente. O autódromo é imponente. Há muito que não sigo a Fórmula 1 mas estar naquele espaço deixou-me deslumbrado. Parecia um miúdo a tirar fotos a tudo o que conseguia.

Para minha grande alegria comecei a encontrar caras conhecidas e acabei por me juntar a um colega de equipa e à malta dos 4 ao KM - onde estavam inclusive conterrâneos meus, pelo que estava em casa e entre amigos.

Quando me perguntaram que tempo queria fazer disse honestamente que não sabia bem. Tinha visto algumas informações do traçado mas não tinha bem noção das subidas e descidas. Queria era continuar a divertir-me mas atirei com um "Ora isto são 8,3kms, faço uma quarenta e qualquer coisa minutos."

Na partida fiquei longe da pole position, mas não fazia mal. O começo era a descer, cortei as curvas e imaginei-me ao volante de um mini Fórmula 1 a embalar por ali fora e a fazer uma corrida de trás para a frente. Estava verdadeiramente feliz e descontraído a fazer cada curva e contracurva sempre pela trajectória ideal. A certa altura ouço alguém atrás de mim a dizer que o pior já tinha passado e quando olho em frente estava a aproximar-me da recta da meta. Uma volta, já?? Passei com pouco menos de 21 minutos e fiz mentalmente o percurso da segunda volta para perceber onde podia ganhar tempo! Quando uma pessoa se sente bem e feliz nada nos pára!

Como agora tínhamos a caminhada do lado direito da pista já não dava para cortar todas as curvas mas isso não era problema. Ia olhando para esse lado e só via sorrisos e toda a gente a desfrutar da oportunidade de estar ali. Passei por caras conhecidas e ainda me apanharam numa foto e quando dei por isso estava novamente no fim da última subida rumo à meta. Não hesitei e acelerei para passar a bandeira axadrezada (não havia mas eu imaginei-a) com uma felicidade enorme e batendo o meu tempo da primeira volta! Naquele instante tive pena de não darmos mais umas 40 voltas. Energia e vontade não me faltava.

Tinha dito à malta que ia logo embora depois de acabar porque tinha que ir rápido para casa tomar banho e rumar ao epílogo deste dia,mas vi que tinha tempo e tive um daqueles feelings que tinha que voltar para trás. Fui em busca de quem eu sabia que mais iria precisar de ajuda. Ainda fiz mais um quilómetro e quase meio para trás e quando a apanhei disse-lhe que isto não era só "dar-lhe na cabeça por faltar aos treinos, também era fundamental ajudar quando marcava presença." Fomos juntos até ao fim,com direito a um sprint na recta da meta para terminar em grande. Nos treinos, nas provas, em todo o lado, o lema não muda: ninguém fica para trás!

Saímos de lá e eu estava feliz. Tinha comentado que fazer aquela prova (ainda por cima a custo zero) ia permitir retirar a Corrida do Jumbo do calendário... mas a verdade é que fiquei cheio de vontade de voltar a correr no Autódromo!

Epílogo

Viagem até casa, banho rápido e final de noite num jantar de amigos. Nota: meus caros, eu adoro-vos do fundo do coração mas quando vocês são os primeiros a torcer o nariz a combinar almoços para domingo porque é cansativo antes de começar a semana, é um contrasenso lançarem o convite para jantarmos no domingo, pá! Três garrafas de Lambrusco depois já me tinha esquecido desse meu desagrado! Um final de dia entre gargalhadas a juntar aos sorrisos durante o resto do dia. Não podia pedir melhor. 

(Trabalhar hoje é que foi difícil...)

(Nota final para o meu pensamento que esteve também repartido pela Maratona de Paris onde tinha alguns amigos e conhecidos; pelo Cork Trail onde tinha uma cara amiga para além da equipa quase toda em peso; pelo troféu das localidades onde os nossos amigos tagarelas foram buscar mais umas medalhas e até pela serra do Socorro onde outra amiga foi buscar uma medalha no seu escalão! Fim de semana desportivo em grande!)

Prova nº 57 - Corrida Rádio Comercial 2017 - 8,3km - 00:40:54

domingo, 2 de abril de 2017

Mafra nunca desilude

Já disse e repeti esta frase hoje e em muitos outros dias em que por lá estive.
O picnic foi espectacular. O tempo ajudou imenso. Já ouvi falar em possíveis escaldões e tudo. A criançada que esteve presente brincou que se fartou no parque desportivo municipal de Mafra. Recomendo vivamente para quem for da zona e estiver à procura de um sítio simpático para passar uma tarde agradável. E foi mesmo uma tarde tranquila de excelente convívio após a prova. A repetir.

Ah pois, e a prova?
A coisa começou mal na 6a feira quando acordei com algumas dores nos gémeos, fruto de um treino mais intenso na 5a à noite. Achei que a coisa ia passar, mas sábado estava igual. Não, estava pior e por vezes custava-me a andar. Comecei a ficar preocupado e até passei Voltaren para ver as a coisa acalmava. Hoje de manhã acordei... na mesma.

No sábado à noite um colega perguntou-me que tempo estava a pensar fazer e eu disse-lhe entre 1:18 e 1:22. Ele gostou da resposta e disse-me que assim sendo íamos um a puxar pelo outro. E depois disse-me que fazíamos 1:15. Medo!!! Não neguei o desafio, mas sabia que isso não ia acontecer.

E hoje lá fomos, partimos juntos e estivemos os 2 primeiros quilómetros em slalom constante a ultrapassar atletas, fruto de muita confusão na partida - mais que nos outros anos - provavelmente por termos ficado mais para trás do que teríamos gostado. Quando demos a volta à escola de armas do Convento de Mafra ele já ia lançado e eu fiquei para trás e nunca mais o haveria de apanhar. Tentei ignorar as dores nos gémeos mas era impossível. Felizmente nessa altura estávamos a começar a cruzar com quem vinha na prova dos Sininhos e isso foi muito bom para distrair e procurar caras conhecidas vindas em sentido contrário, algumas até inesperadas!

Na rotunda seguinte pelos 4km confesso que pensei em seguir para o lado da caminhada e ficar por ali. Para quê continuar se estava tão desconfortável? Alterei ali mesmo os planos: se não dava para o tempo que queria, então ia seguir em ritmo descontraído e fazer um treino longo sem pressão.

Foquei-me no som que estava a ouvir - e que tinha passado o sábado a ouvir sobretudo quando estava a preparar coisas para hoje - e relaxei. As dores estavam lá mas deixaram de me incomodar tanto. As pernas pareceram menos presas e a passada custava-me menos. Teria provavelmente aquecido o suficiente para o corpo entrar em ritmo de cruzeiro. Pensei novamente que agora estava tramado porque tinha que fazer a prova até ao fim. Deixei-me ir, deixei-me ir, aproveitei a descida e quando virámos para o retorno olhei para o relógio e percebi que estava dentro do tempo que tinha idealizado para hoje. Sempre que tinha olhado durante a descida vi que ia próximo ou abaixo dos 5:00/km, mas achei que era só coincidência. Também percebi que só devia ter um minuto de atraso para o meu colega. Tu queres ver?

Cheguei aos 10km - já a subir - com 50:45 e comecei logo a fazer contas de cabeça. 5km a 6m/km dava para acabar com 1:20:45. Fixe, era só defender-me bem nas subidas que tinha pela frente e não acabava assim tão mal quanto isso. Até que aos 11km caminhei pela primeira vez por breves momentos. Não gostei da sensação e voltei a correr. Nessa altura já pedia palmas a toda a gente que assistia à beira da estrada. Aos 12km aproveitei o percurso mais acessível e acelerei.

Por mais que uma vez um atleta passou por mim quando eu estava a passo mais lento e disse-me para não acelerar tanto a subir. Chamou-me sempre pelo nome e eu achei que era alguém conhecido, mas não era. Coisas normais de quem tem o nome nas costas da camisola. Também nesta altura a minha estratégia era meter as mesmas duas ou três músicas em loop nos phones por serem aquelas da playlist que me dão mais pica. Assim que acabavam voltava a puxar atrás para as ouvir. Se há dias em que não faz falta, hoje o suporte musical foi essencial.

Pelos 13km mais uma subida antes da parte crucial. Voltei a caminhar para beber água e nessa altura alguém grita atrás de mim o meu primeiro e último nome: "____ ____, tu não vais parar agora! Estás quase no fim!" Mais uma vez, era um atleta que me era totalmente desconhecido. Respondi-lhe que ele tinha razão, que eu tinha demasiada gente importante à minha espera na meta!

Pensei em tanta coisa naqueles segundos, em toda a gente que estava efectivamente presente hoje, nas pessoas que não estando presentes em Mafra têm estado sempre do meu lado. Pensei nas caras conhecidas - e desconhecidas - do pelotão e naquilo que me comprometi a tentar há dias no blog. Acelerei o mais que pude e aproveitei a descida para embalar mesmo sabendo que a subida seguinte, a última subida da prova, é aquela que mais me custa, opinião partilhada por outros colegas. Passou por mim o João Lima que me perguntou se eu ia conseguir. Confesso que não me recordo o que respondi. "Não sei" ou "acho que sim". E claramente não sabia.

Quando tive que andar uns metros ouvi o meu nome - OUTRA VEZ!
"___ ____, tu nem penses! Vai-te embora!" E só tive tempo para olhar de relance e ver aquela mesma camisola laranja do companheiro de estrada e ele empurrou-me - literalmente - para eu voltar a correr. Não voltei a parar. O meu muito obrigado àquele herói improvável que ainda me apanhou à entrada do Parque Desportivo antes de descermos para a pista de tartan. Eu sprintei por ali fora e não o voltei a ver. Quando passei a meta fiz pose para a foto do Armindo, ouvi o meu nome nas bancadas e quando procurei por uma camisola cor de laranja não a encontrei. Pode ser que consiga perceber quem era pelas fotos.

Eu já disse várias vezes que a cabeça corre mais que as pernas. Hoje tive o exemplo de passar por várias fazes distintas durante a prova. Travei uma batalha psicológica comigo mesmo e isso cansou-me mais que o normal. Se calhar cansou-me tanto que me fez esquecer os gémeos. E eles ainda me estão a doer. Alongamento deficiente na 5a e hoje também? Falta de aquecimento hoje? Uma questão a rever.

O meu colega falhou o objectivo por um minuto e meio mas mesmo assim bateu o seu record. Já comparei os meus tempos por km com os dele para ver onde perdi tempo e até houve quilómetros em que lhe ganhei alguns segundos. Para o ano lá estaremos para nova aventura e novo desafio!

E eu? Não bati o meu record aos 15km por uns míseros 24 segundos, mas retirei exactamente 4 minutos ao meu tempo dos Sinos no ano passado. Triste? Nem pensar! Basta lembrar que há pouco mais de um mês estava a abdicar da Meia Maratona de Cascais para completar a recuperação de uma lesão!

Histórico da prova:
2015 - 1:30:31
2016 - 1:22:49
2017 - 1:18:49

Venha a próxima! Dia 9 tenho dose dupla a fazer claque no Estádio da Luz e a brincar à Fórmula 1 no Autódromo do Estoril.

Prova nº 56 - Corrida dos Sinos 2017 - 15km - 01:18:49

sexta-feira, 31 de março de 2017

Sinos-ite

Não, não estou doente. E enquanto digo isto estou a bater 3 vezes na madeira.

Estou sim com um grave caso de não me sair da cabeça aquilo que quero fazer no domingo: o pic-nic depois da prova, com um valente sorriso por ter conseguido cruzar esta meta no tempo que pretendo.


Assumo-o aqui, tal como já assumi ainda hoje no treino: quero bater o meu tempo aos 15km. E para isso estou - muito ao meu estilo - a analisar todas as pedrinhas do asfalto, rotundas, descidas e principalmente subidas.

Vamos então por partes. O meu record é de 1:18:27, conseguido na Corrida 1º de Maio de 2016. Em Mafra o meu melhor tempo é de 1:22:49, feito um mês antes, em Abril 2016.

Há muitas semelhanças entre ambas as provas. Tanto uma como outra têm cerca de 140m de acumulado e ambas têm uma fase inicial rápida com vários quilómetros de descida até perto dos 9km e uma longa subida a partir dessa altura a caminho da meta. Já andei a calcular a que ritmo tenho que descer, quanto tempo tenho que ganhar para depois compensar na subida. Já sei com quantos minutos de prova quero fazer o retorno, já fiz essas continhas todas. E relaxem, não vos vou aborrecer com esses detalhes.

Isto é sinal que tenho demasiado tempo livre nas mãos? Não! Por um lado tanto eu como o meu amigo Excel fazemos contas depressa; por outro lado é sinal que estou focado num objectivo e é isso que me dá aquele boost de energia extra. Também é sinal que me sinto confiante e a regressar à melhor forma. (Ainda hoje no treino tive a certeza disso!) A esta altura do ano passado estava num crescendo e a quebrar os meus próprios records a cada prova que fazia, numa forma que teve o seu ponto alto quando baixei dos 50 minutos na Corrida de Santo António. Estava também numa fase em que concentrava todas as minhas energias na corrida porque era o escape perfeito para me esquecer de tudo o resto. Numa fase que foi ensombrada pelo descalabro do Douro Vinhateiro mas à qual respondi da única maneira que sei - corri dali para fora.

Continuando... Adoro Mafra, sabiam?

E se correr mal? Se não for dia de fazer um brilharete e me espalhar ao comprido nas minhas intenções? Sem problema, há a Scalabis, a Corrida 1º de Maio e tantas outras pela frente. Não vou ficar triste ou aborrecido. A vida é demasiado curta para isso.

Resumidamente, se me cruzar com alguém durante a prova e não disser nada ou estou a tentar voar por ali abaixo ou a tentar escalar por ali acima. Ou estava apenas distraído.

E não podia acabar o texto sem dizer que - outra semelhança - ambas as provas acabam na pista de tartan de um estádio!

Até domingo!

domingo, 26 de março de 2017

Dilúvio (de felicidade)

Duas semanas após a última prova, eis-me de volta à companhia dos amigos tagarelas para nova incursão ao concelho de Oeiras - onde nasci - para nova prova do troféu das localidades. O destino hoje era Tercena, mesmo ao lado da terra onde vivi durante um quarto de século da minha vida.

Quem também marcou presença foi a chuva. Um autêntico dilúvio que foi piorando durante a viagem à medida que percorríamos o IC19. Pelo caminho falávamos de outros amigos que estavam em provas um pouco por todo o país, sobretudo em trails, e que deveriam passar também por dificuldades.

À chegada até se pensou que a prova pudesse ser cancelada/adiada mas rapidamente se confirmou que isso não iria acontecer. Era então altura de todos se prepararem psicologicamente para o que íamos enfrentar e percebemos que uns apreciam correr debaixo de chuvinha da boa e outros torciam o nariz... 

Tanto no carro como depois já em Tercena com colegas que vinham nos outros carros se comentava igualmente as provas que já tínhamos corrido à chuva. A mim vieram-me à cabeça a São Silvestre dos Olivais em 2015 onde choveu de forma copiosa até cinco minutos antes da partida e a Meia Maratona dos Descobrimentos de 2016 que é de má memória para mim. E hoje não era dia para pensamentos negativos! A primeira diferença era que não ia correr com o impermeável - nem sequer o levei, ficou a dormir em casa! Se é para chover, que chova!

Depois de uma longa espera para a partida da prova feminina - antes da nossa - ficou claro que não havia melhorias nas condições climatéricas. O que tem que ser tem muita força. E eu hoje sentia-me forte e queria demonstrar isso no asfalto. Fomos para o pórtico e arrancámos.

Confesso que, ao contrário do habitual, não tinha estudado o percurso. Vi a altimetria e a distância e foi só, por isso não achei estranho estarmos a descer até à Fábrica da Pólvora de Barcarena, apesar de ter ouvido que íamos subir essa estrada no final. Percebi entretanto por conversas de outros atletas que estávamos a fazer o percurso inverso em relação ao anunciado. Não achei relevante, mal por mal teríamos sempre que subir e descer muito.

Assumi comigo mesmo um compromisso para hoje: nunca olhar para o relógio durante a prova. Não ir ver a distância ou o ritmo que marcava. Era só correr pelo prazer de correr e dar tudo o que tinha enquanto me sentisse bem. A organização tinha blocos a marcar os kms na estrada e isso ajudou a ir controlando a distância. Não levei música - deixei o mp3 no carro e acabei por não o ir buscar enquanto esperávamos pela partida - e ainda não sei se foi boa ou má opção. Tem-me ajudado correr com bom som, mas não houve assim nenhum momento em que tivesse sentido necessidade desse boost extra de energia. Senti foi um enorme silêncio na estrada. Uma ou outra pessoa a aplaudir à janela e nenhuma troca de palavras com os restantes participantes. 

Estas localidades são tão próximas que por vezes os percursos acabam por ser semelhantes. Hoje ao chegar aos 2kms vi uma rotunda familiar, uma bomba de gasolina que já tinha visto antes e caiu-me tudo quando percebi que íamos subir a Estrada Militar de Barcarena, a mesma que já tinha apanhado em Dezembro. Disse um palavrão na minha cabeça e mentalizei-me. Consegui subir quase quase sem caminhar mas na parte final não aguentei. Depois a descer senti-me sem pernas para voltar a acelerar e só o fiz quando um trio de atletas femininas passou por mim. Estavam a fazer a prova masculina em modo de treino, iam em ritmo regular, em amena cavaqueira. Decidi segui-las e consegui, mantendo sempre uma pequena distância para elas. Obrigado por terem sido minhas lebres, sem o saberem. Foi uma boa decisão da minha parte, sempre com o foco em recuperar o tempo perdido na subida, pois claro! 

Estabilizei o meu andamento e as restantes subidas já não foram tão problemáticas, apesar de duras. Já só tinha o foco na meta. Foi já nos kms finais que entrei em "picanço" com outro atleta, mais experiente que eu. Eu passava-o nas descidas, ele passava nas subidas e ninguém ganhava vantagem em terreno plano. Desconfiei mesmo que  ele estava em despique porque acelerava quando eu o ia ultrapassar. Tendo em conta que claramente não somos do mesmo escalão não estávamos a lutar por um lugar na classificação, mas não fazia mal. Ao ver que estávamos já na aproximação à meta e ter percebido que ele ia em esforço, acelerei e passei por ele mesmo antes da última curva. Estávamos nos 400 metros finais e não parei mais. Meti os olhos noutro atleta que tinha à frente e senti que ele sim era do meu escalão. Entrei em modo segmento e fiz aqueles metros finais em velocidade pura e passei-o, só mesmo porque estava com a pica toda. 

Logo após a meta ele dá-me uma palmada nas costas e elogia o meu sprint. Disse-me que eu estava com imensa energia para quem estava a acabar uma prova daquelas. E estava! Aguardo a fotografia tirada pelo Armindo - uma cara bem conhecida por quem anda nestas andanças - que espero que mostre o dilúvio de felicidade que sentia no final. 

Não falei da chuva durante este relato. Nem me lembrei dela durante a prova. Só a senti no funil de chegada após a meta. Foi a minha melhor prova deste troféu, acabei com um ritmo de 5:22/km. E só olhei para o relógio após a meta! Agora que já tenho o percurso no Strava vejo que consegui andar a 4:30, 4:40 nas partes boas da prova e ligeiramente abaixo dos 5:00 depois da maléfica subida a meio. 

Infelizmente um problema informático impediu a divulgação de todas as classificações finais, portanto não sei em que lugar fiquei. Não que me faça diferença, mas é mera curiosidade até por estarem menos atletas presentes por causa da chuva. Ah... E aquele rapaz que passei antes da meta era M40, portanto também não entra nestas contas. 

No próximo domingo é dia da Corrida dos Sinos. Está decidido, vou atacar o tempo! 

Prova nº 56 - Troféu das Localidades (Sintra, Oeiras e Cascais) - Grande Prémio de Atletismo de Tercena - 7,3km - 39:22